Quanto da renda comprometer com carro
Não existe “regra dos 30%” com fonte primária, e este site não publica uma. O percentual da renda que você aceita comprometer é escolha sua. O que dá para calcular com precisão é o efeito dessa escolha — e o erro que quase todo simulador comete no caminho.
Com renda líquida de R$ 6.000 e 25% de comprometimento, o teto é R$ 1.500 por mês. Só que R$ 850 desse teto já vão para rodar o carro: combustível, seguro, IPVA, licenciamento e manutenção. Sobram R$ 650 para a prestação, e é isso que cabe. Com R$ 10.000 de entrada, a 1,79% ao mês em 48 meses, o carro viável é de R$ 30.817,02. A conta inteira está na calculadora de quanto de carro cabe no bolso.
A conta tem duas etapas, e a primeira é a que some
Etapa 1: parcela disponível = renda × percentual escolhido − custo de rodar. É aqui que quase todo simulador para de calcular antes de começar.
Etapa 2: inverta a Tabela Price. A parcela disponível vira valor financiável, e somando a entrada você chega ao preço do carro que cabe. No exemplo, R$ 650 de prestação financiam R$ 20.817,02.
O erro que custa R$ 27.222,26
Se você jogar o teto de R$ 1.500 direto na prestação, sem descontar o custo de rodar, o resultado sai R$ 58.039,28 de carro — contra os R$ 30.817,02 que cabem de fato. São R$ 27.222,26 de carro a mais do que o orçamento aguenta.
A diferença não aparece na loja. Aparece no terceiro mês, quando o seguro, o IPVA e a primeira revisão chegam junto com a prestação e o dinheiro do mês acaba antes do mês.
O mesmo percentual em rendas diferentes
Com 25% de comprometimento e R$ 850 por mês de custo de rodar:
- renda de R$ 3.000: rodar já consome 28,333% da renda e estoura o limite — não cabe carro nenhum, embora o simulador ingênuo apontasse R$ 34.019,64;
- renda de R$ 4.500: rodar consome 18,889%, sobram R$ 275 de prestação, cabe um carro de R$ 18.807,2 — o simulador ingênuo diria R$ 46.029,46;
- renda de R$ 6.000: rodar consome 14,167%, sobram R$ 650, cabe R$ 30.817,02 — contra R$ 58.039,28;
- renda de R$ 9.000: rodar consome 9,444%, sobram R$ 1.400, cabe R$ 54.836,66 — contra R$ 82.058,91;
- renda de R$ 12.000: rodar consome 7,083%, sobram R$ 2.150, cabe R$ 78.856,29 — contra R$ 106.078,55.
Repare no que o custo fixo de rodar faz com quem ganha menos: R$ 850 são 28,333% de R$ 3.000 e 7,083% de R$ 12.000. O carro não fica proporcionalmente mais barato para quem tem menos renda — ele fica proporcionalmente muito mais caro.
O campo que decide a resposta
É o custo de rodar, e ele é seu para medir. Some o que você gastou no ano passado com combustível, seguro, IPVA, licenciamento e oficina, divida por 12 e ponha no campo. O ponto de partida de R$ 850 é ponto de partida, não referência — o número que vale sai de quanto o seu carro custa por mês.
Não resolva pelo prazo
Esticar o financiamento faz caber um carro mais caro com a mesma prestação: os R$ 650 disponíveis financiam R$ 20.817,02 em 48 meses e R$ 26.190,25 em 72 meses. O carro melhora e o contrato piora, porque você paga juro por dois anos a mais.
A conta também não olha score, aprovação de crédito, outras dívidas nem renda variável, e supõe o custo de rodar constante quando na prática ele cresce com a idade do carro. Se o resultado ficou no limite, ele já está otimista.